Poucas notícias deixam alguém tão feliz quanto saber que ganhou um processo. É com essa alegria, e com a confiança que você tem no seu advogado, que conta o golpe do falso advogado. Ele cresceu muito nos últimos anos e engana até quem está acostumado a desconfiar de mensagens, porque usa informações verdadeiras do seu próprio caso.
Como os golpistas sabem do seu processo
A maior parte dos processos judiciais é pública. Nos sites dos tribunais e nos diários oficiais aparecem o número do processo, o nome das partes, o assunto, o andamento e o nome e o número da OAB do advogado. Os golpistas usam programas que vasculham essas publicações e cruzam os dados com vazamentos de telefone e CPF.
Com isso, eles sabem quem você é, contra quem está processando, qual é o seu advogado e em que fase o processo está. A mensagem chega com detalhes que só alguém de dentro deveria saber, e por isso parece tão convincente.
Como o golpe acontece, passo a passo
- O contato: chega uma mensagem no WhatsApp de um número novo, com a foto e o nome do seu advogado ou do escritório, copiados das redes sociais ou do site dele. Às vezes o golpista se apresenta como “assistente”, “estagiário” ou “setor financeiro” do escritório.
- A boa notícia: “Parabéns, saiu a decisão do seu processo e você ganhou R$ 18.400. O valor já foi liberado.” A mensagem cita o número real do processo, o nome da empresa contra quem você move a ação e até o nome do juiz.
- O documento: para dar credibilidade, o golpista manda um PDF com a capa do processo, uma decisão, um “alvará de pagamento” ou um “ofício do tribunal”, com brasão, assinatura e carimbo. Partes podem ser reais, copiadas do site do tribunal. O resto é montado.
- A urgência: “O valor precisa ser sacado até amanhã, senão volta para o tribunal.” A pressa serve para você não ter tempo de ligar para ninguém.
A partir daí, o golpe segue por um de dois caminhos.
Caminho 1: o Pix da “taxa”
Para liberar o dinheiro, seria preciso pagar antes uma “taxa de liberação”, “custas finais”, “imposto de renda retido”, “honorários do perito” ou “atualização do alvará”. O valor costuma ser bem menor que o prêmio, de algumas centenas a alguns milhares de reais, para parecer um bom negócio. O Pix vai para a conta de uma pessoa ou de uma empresa que não tem nada a ver com o escritório. Depois do primeiro pagamento, aparece outra taxa, e mais outra.
Caminho 2: dados bancários e a videochamada “com o juiz”
Essa versão é ainda mais perigosa. O golpista pede seus dados bancários “para fazer a transferência” e, em seguida, diz que o juiz precisa confirmar a sua identidade por videochamada, “em caráter de urgência”, antes de liberar o valor.
Na chamada aparece alguém de terno, às vezes com toga e um fundo de tribunal, que pede para você:
- olhar para a câmera, virar o rosto para os lados, piscar ou sorrir;
- mostrar o documento com foto, frente e verso;
- abrir o aplicativo do banco “para conferir se o valor caiu”, às vezes compartilhando a tela.
Cada um desses passos tem um objetivo. Os movimentos de rosto são exatamente os que os bancos pedem na prova de vida por biometria facial. Com a gravação do seu rosto e o seu documento, os criminosos conseguem abrir contas no seu nome, contratar empréstimos, cadastrar um novo celular no seu banco e autorizar transferências. A tela compartilhada entrega senhas e saldos. Às vezes o prejuízo só aparece dias depois.
Sinais de que é golpe
- O “advogado” fala com você por um número diferente do que você conhece, mesmo que tenha a foto e o nome dele.
- A notícia de que você ganhou chega sem você esperar, ou muito antes do que o seu advogado tinha previsto.
- Pedem qualquer pagamento antecipado para liberar o valor: taxa, custas, imposto, honorários ou seguro.
- O Pix vai para uma conta em nome de pessoa física ou de empresa desconhecida, não para o escritório.
- Pedem seus dados bancários completos, senha ou código recebido por SMS.
- Marcam uma videochamada “com o juiz”, “com o perito” ou “com o banco” para confirmar sua identidade.
- Há pressa: “o prazo vence hoje”, “o dinheiro volta para o tribunal”.
- O escritório pede sigilo: “não comente com ninguém até o dinheiro cair”.
Como se proteger
- Ligue para o seu advogado no número que você já tinha, ou vá ao escritório. Não use o telefone nem o link que veio na mensagem nova.
- Combine uma regra com o seu advogado: pergunte como ele avisa sobre valores a receber e se o escritório algum dia pediria pagamento por Pix. Assim você sabe o que esperar.
- Consulte o processo você mesmo no site do tribunal, pela consulta processual com o número do processo. Se não houver decisão nem alvará lá, desconfie.
- Nunca pague para receber. Custas e impostos de um processo ganho são acertados nos próprios autos ou descontados do valor, nunca por Pix para receber o dinheiro.
- Não faça videochamada com desconhecidos e não mostre seu rosto e seu documento para ninguém que entrou em contato com você.
- Não informe senhas nem códigos e não compartilhe a tela do celular.
- Ative a verificação em duas etapas no WhatsApp e restrinja quem vê a sua foto de perfil.
Se você é advogado
- Avise todos os clientes, por escrito, que o escritório nunca pede pagamento por Pix para liberar valores e qual é o único número oficial de contato.
- Coloque esse aviso na assinatura do e-mail, no site e no perfil das redes sociais.
- Se souber de um perfil falso com o seu nome, denuncie no próprio WhatsApp, registre boletim de ocorrência e comunique a seccional da OAB.
Caí no golpe do falso advogado. E agora?
- Fez um Pix? Avise seu banco imediatamente e peça o MED. O passo a passo está em Caí no golpe do Pix: o que fazer agora.
- Fez a videochamada ou mandou foto do documento? Avise todos os bancos em que tem conta, troque senhas, peça o bloqueio de novos dispositivos e acompanhe as movimentações nos próximos dias.
- Confira se abriram contas ou empréstimos no seu nome pelo Registrato, do Banco Central, que é gratuito e acessado com a conta gov.br.
- Avise o seu advogado de verdade, para que ele alerte outros clientes e informe a OAB.
- Guarde as provas (prints das conversas com o número visível, o PDF recebido, comprovantes) e registre boletim de ocorrência pela delegacia eletrônica do seu estado.
- Denuncie o número no próprio WhatsApp para que a conta seja derrubada.
Perguntas frequentes
Como os golpistas sabem os detalhes do meu processo?
A maioria dos processos é pública. O número, o nome das partes, o andamento e o nome do advogado aparecem nos sites dos tribunais e nos diários oficiais. Os golpistas cruzam esses dados com telefones vazados.
É preciso pagar alguma taxa para receber o dinheiro de um processo?
Não por Pix e não antes de receber. Custas, impostos e honorários são tratados dentro do processo ou descontados do valor pelo seu advogado. Pedido de pagamento antecipado para liberar dinheiro é golpe.
O juiz pode fazer videochamada para confirmar minha identidade?
Não por WhatsApp. Audiências por vídeo são marcadas no processo, com aviso oficial, em plataformas do tribunal. Ninguém da Justiça pede que você mostre o rosto de vários ângulos, o documento ou o app do banco.
Recebi um PDF do processo. Isso prova que é verdade?
Não. Os golpistas copiam páginas reais do site do tribunal e montam alvarás e decisões falsas. Consulte o processo você mesmo no site do tribunal e confirme com o seu advogado pelo número que você já conhecia.
Fiz a videochamada e mostrei meu documento. O que faço?
Avise seus bancos, troque senhas, acompanhe as movimentações e consulte o Registrato do Banco Central para ver se abriram contas ou empréstimos no seu nome. Registre boletim de ocorrência e guarde as provas.
Ajude alguém a não cair nesse golpe. Mande este guia para a família, os amigos e o grupo do trabalho.
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